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Consumada a cisão, na Academia Marina Aguiar continuamos nós, muitos remanescentes da formação original do grupo e outros que haviam ingressado mais recentemente, dando prosseguimento à linha de ação e pesquisa que vinha se mantendo, contando agora com integrantes em faixa etária bem mais distendida.
Mais maduros e estruturados, buscamos criar os estatutos de uma associação cultural sem fins lucrativos, que contemplasse de forma mais abrangente a diversidade das nossas atividades e atuações, e que são os que vigoram até hoje.
Foi um período de muitas viagens em grupo para o aprofundamento das relações. A cada feriado, nos organizávamos para aproveitá-lo juntos, indo para um sítio ou acampando, criando oportunidades preciosas para
o exercício da cooperação, o respeito pelo coletivo, a descoberta do indivíduo dentro do grupo através de atividades programadas para o coletivo, para subgrupos e a previsão de momentos livres que contemplassem as necessidades individuais. Aproveitávamos as peculiaridades dos locais para desenvolvermos atividades de sensibilização, laboratórios de percepção, de criatividade, de dinâmica, de integração.
Neste período, contou-se também com a colaboração de um psicólogo que, durante um tempo, conduziu práticas/ exercícios de dinâmica de grupo para facilitar a convivência, ajudando, assim, o seu funcionamento.
Demos prosseguimento, agora com o nome impreciso de Experimentos Teatrais, à nossa linha de atividades lúdicas, integrativas e interativas, umas vezes mais outras menos cênicas, ao ar livre, em praças e ruas, e que foi o embrião de nosso trabalho de rua mais estruturado.
No período de 75 a 77, com o recrudescimento das ditaduras latino-americanas e a intensificação do que chamávamos "migração latina", surgiram e se mantiveram muitos "Grupos Latinos", que passaram a divulgar os ritmos, as sonoridades e
a cultura de nossa América. Foram também responsáveis pela divulgação dos trabalhos de artistas de resistência de vários países (Tejada Gomes, Atahualpa Yupanky, Angel e Violeta Parra, Víctor Jara,...).
Não tardou para que certa parcela preconceituosa da mídia rotulasse artistas, e seus simpatizantes, de "turma do poncho e conga", uma alusão à difusão da forma de se vestir que se disseminou e aos instrumentos utilizados.
Muitos dos integrantes do grupo foram tendo contacto com esse universo de "migrantes" latino-americanos e suas culturas. Imperceptivelmente foram se estreitando vínculos e muitos deles começaram a se encontrar conosco na Marina Aguiar, propiciando vivências com intercâmbios de músicas e danças.
Era também o momento em que discutíamos as características de nossas atividades e o perfil da entidade que pretendíamos sacramentar.
Imbuídos, então, da consciência de nossa latinidade, queríamos um nome que estivesse muito ligado à cultura latino-americana, que fosse eufônico, redondo e visualmente bonito. Que pudesse conter uma carga cultural forte e, se possível, uma certa relação com o transe, com a busca da evasão, tão presente nas culturas dos povos do mundo.
Investigamos em vários manuais e relatos, e nos rendemos ao mito Abaçaí, com alguns séculos de atraso, quando Abaçaí, pela ótica dos europeus e da cristianização, já se transformara em "gênio mau".
Porque nos dedicávamos à pesquisa de linguagens, e já éramos muito mais que um grupo de teatro, passamos a ser um Núcleo de Arte Experimental. Abaçaí - Núcleo de Arte Experimental.
No começo de 1978, parte do Grupo, 7 pessoas ao todo, resolvemos experimentar morar juntos, em comunidade, o que era um desafio, e fazer teatro todos os dias, a qualquer hora. Este último propósito, um outro desafio.
Assim surgiu o projeto que ficou conhecido entre nós por O jogo e O Consertador.
Pretendíamos a montagem de dois espetáculos que pudessem facilmente itinerar por escolas e contribuir para a educação, mas que não fossem didáticos. Que se adaptassem a quaisquer condições espaciais, de montagem, desmontagem e traslados fáceis, mas que, na contrapartida, fossem estética e cenicamente ricos. Que pudessem ser apresentados pela manhã, à tarde e à noite.
Assim nasceram os espetáculos O Jogo da Independência, que visava uma faixa de público ampla, atingindo de forma mais eficiente um espectador a partir da 3ª. série, e O Consertador de brinquedos (de Stella Leonardos, por nós adaptado), que mostrava eficiência para um público acima de 5 anos até 12 anos.
Toda a produção, como das demais vezes, foi um empreendimento coletivo. Para levantar fundos, decidiu-se criar um produto cultural de qualidade, de forte apelo político/ ideológico, facilmente vendável e que nos fizesse ter orgulho do mesmo. Por votação, elegeu-se a confecção de pôsteres, pelo processo de serigrafia, tendo como apelo central uma estampa da Violeta Parra e dois trechos de poemas que exemplificavam bem nosso sentimento latino
de então.
O Consertador de Brinquedos era encenado por um outro elenco, levado às escolas (em salas de aulas, em quadras abertas, quadras cobertas, os mais diversos espaços). Tratava da tentativa de despejo de um consertador de brinquedos, cuja loja se encontrava numa área comprada por um empreendedor imobiliário, que, não vendo sentido na atividade de um "consertador de brinquedos", queria que sua loja fosse demolida para dar lugar a um "arranha céu".
Com O Jogo da Independência e O Consertador de Brinquedos, durante quase dois anos percorremos os morros da periferia de São Paulo, oportunidade de conhecer a região de Taboão da Serra, Itapecerica da Serra, Embu, Campo Limpo Paulista e vários
bairros da Zona Sul.
Em 1979, a Academia Marina Aguiar fechou as portas. Perdemos as condições privilegiadas de local para ensaios, passando a fazê-los no escritório de advocacia de um dos componentes, na Aclimação. Em dias de sol, os trabalhos aconteciam no quintal, gramado, ao ar livre.
Esse período foi prenúncio de nova etapa que já estava por chegar.
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O
início
As linhas mestras
O bando
Amadurecimento
Surge o nome Abaçaí
O divisor de águas: Folclore
Ação Cultural
Chegada ao Parque
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