Em 1984, a Abaçaí foi convidada para integrar um projeto que estava para se instalar no prédio do Instituto Cultural Israelita e Brasileiro - ICIB - onde fica o TAIB, no Bom Retiro. Mudamo-nos para o endereço.

O projeto não andou. Mas nós demos certo no espaço, nele permanecendo por mais de 5 anos, período em que a entidade cresceu e se consolidou, ganhando os contornos que se mantêm até o presente.

Todas as atividades anteriores se mantiveram e se ampliaram, sendo retomada nossa linha de ação cultural com as crianças de cortiços da redondeza, com idosos, além da oportunidade de trabalhar com um grupo de cegos.

Ampliou-se e se diversificou o trabalho com bonecos de rua, dando-se início, a partir dos levantamentos de campo, à mobilização dos bonequeiros do interior do Estado. Assim começaram as concentrações anuais de bonecos gigantes, cabeções e bichinhos de saias, reunindo na Capital as manifestações do interior. Isto culminou com o convite para realizarmos o projeto Bonecões, Caras e Caretas na XX Bienal Internacional de São Paulo, com o lançamento do I Festival de Bonecos de Rua na abertura e uma instalação de 400 m2 no recinto de exposições.

Nesse período começou a ganhar destaque o Balé Folclórico de São Paulo, que ampliou ainda mais nosso espaço de atuação, mesmo porque era o único grupo do gênero em São Paulo, passando a ser convidado para representar São Paulo e o Brasil em eventos nacionais e internacionais, garantindo-nos mais acesso na mídia.

Experiência inédita, para nós, e mesmo para outros grupos artísticos de São Paulo, foi integrar os desfiles de duas Escolas de Samba do Grupo Especial (quando ainda realizados na Av. Tiradentes); em ambos os casos, mantendo-se nossa identidade de grupo, de entidade, conservada numa ala. 

As preocupações com o meio ambiente faziam parte das práticas rotineiras da Abaçaí. Sentiu-se, em determinado momento, necessidade de se formalizar propostas, surgindo então o Projeto Curupira, o braço verde da entidade.

Através dele, a Abaçaí vem organizando, eventualmente, atividades que articulem outras entidades da área, visando informar e conscientizar o cidadão comum, com atenção especial para os estudantes. 

Tendo como parceiro o SESC Carmo, e como eixo temático a cultura caiçara no Vale do Ribeira e Litoral Sul de São Paulo, surgiu o Homem e Natureza - Harmonia ou Agressão?, documental fotográfico e Caderno Cultural relatando a relação do caiçara com a Mata Atlântica. 

O perfil atual da entidade já estava bem delineado e fixado em 1987 e a nossa compreensão da abrangência e do papel da cultura havia se aprofundado.

Assim, em 15 de Novembro foi convocada uma Assembléia Geral em que se propôs a mudança da razão social para Abaçaí Cultura e Arte, oficializando o que já havia se estabelecido na prática. E o raio de ação da entidade se ampliou. 

Em 1992, Missa de Malungos (assinada por Toninho Macedo) marcou a entrada da Abaçaí Cultura e Arte no universo da produção chamada erudita. Trata-se de obra musical do gênero Missa, para coro, solistas, conjunto de percussão, e cordas (violas caipiras, violões, bandolins, rabeca e cavaquinhos), tendo recebido várias colaborações em sua elaboração.

Para sua criação, foram tomados como parâmetro as Missas Luba e Criolla, bem como o antológico African Sanctus (de David Fanshawe), buscando-se seguir suas trilhas. Ratificava nosso envolvimento e compromisso com nossa cultura tradicional, em especial com o segmento que passamos a denominar cultura tradicional negro-brasileira, focalizando o nosso lastro africano.
Pelo impacto causado, em especial junto a alguns setores da hierarquia eclesiástica, vale a pena estender algumas considerações sobre o processo de sua criação, bem como o contexto em que se inseriu.

Começando pelo nome: Malungo é termo Banto bastante difundido pelo Brasil, sobretudo pela variação Marungo. Literalmente, designa os que estão próximos, na mesma faixa etária; os companheiros, os camaradas. Assim, os negros bântu designavam seus parceiros na viagem de infortúnio. Por extensão, passou a designar o irmão de criação. Ou, simplesmente, o irmão.

O texto da missa latina foi traduzido e adaptado com foco mais ecumênico. As bases melódicas e ritmos buscam contemplar nossa diversidade e riqueza culturais, neles fazendo-se presentes elementos rítmico/musicais das três nações afro-religiosas ocorrentes hoje no Brasil (Jêje, Nagô e Angola), da religiosidade popular européia (Folias de Reis, ladainhas, benditos,...), das formas sincréticas originadas no Brasil (Congos, Moçambiques, Ticumbis, Catopês, Rituais de Caboclos,...), e das atividades rotineiras do dia-a-dia do brasileiro (cantos de trabalho).

Para melhor se situar neste momento da Abaçaí, não é demais lembrar que as "Missas Cantadas" integram o repertório de grande parte dos compositores eruditos, tornando-se como que um gênero na arte da composição. Dos que se dedicaram a este gênero merece destaque Giovanni Palestrina que chegou a compor, durante a sua vida (1524-1594), cerca de 90 para coros de 4 a 8 vozes. 
Algumas composições do gênero tornaram-se famosas como a Missa da Coroação e a Missa de Réquiem de Mozart. No Brasil, seguindo os padrões europeus, o gênero teve vários seguidores.

Estimulado pela abertura oferecida pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, essa renovação  recebeu o sopro vital do missionário franciscano Pére Guido Haazen; ao criar no Congo Belga o conjunto Os Trovadores do Rei Baudoin e, com eles, a famosa e insuperável Missa Luba, seguindo o ritual latino, mas ao som de tambores nativos. Nela ficaram registrados aspectos importantes da cultura musical dos povos Bântu.

Em outro pólo, na Argentina, já na década de 70, o compositor Ariel Ramirez traduz o texto do ritual latino, ao pé da letra e, com instrumentação e estilo musical característicos, cria a sua famosa Misa Criolla, que logo transcendeu fronteiras, divulgando o veio musical essencial da América Latina.

Afora os aspectos religiosos, ambas se impuseram como marcos de registros/ difusão de duas culturas. No Brasil, além das Missas compostas segundo as escolas européias, outras surgiram nas águas das Missas Luba e Criolla (Missa dos Vaqueiros, Missa dos Quilombos,...), todas elas importantes, mas com abordagens particularizadas que lhes limitaram o centro de interesses. Além do fato de, formalmente, enquanto composições, não se constituírem em Missas.

Além da bagagem acumulada através de pesquisas, dos conhecimentos de nossa cultura identitária, amealhados ao longo de anos, esses referenciais de produções, citados, foram tomados como parâmetros a serem seguidos ou transcendidos no processo de criação de Malungos.

Foi montada em parceria com a Universidade livre de Música e fez sua pré-estréia no II Festival Internacional de Música/ Idriart, com apresentação, em junho de 1992, no Clube A Hebraica. Sua estréia mundial deu-se no XVI Congresso Mundial de Jornalistas Católicos, em Campos do Jordão/ setembro de 1992, no Auditório Cláudio Santoro, com uma missa co-celebrada por dois bispos e pelo então Presidente da Comissão de Comunicação do Vaticano. Naquela ocasião, Malungos foi ouvida oficialmente, pela primeira vez, por assembléia de aproximadamente 1.000 pessoas, de 89 países, tendo recebido, publicamente, a aprovação da mesma.

A Missa de Malungos passou, em seguida, a ser cognominada por autoridades eclesiásticas da Europa de La Messe des Frères, estabalecendo- se a trilogia Missa Luba, Missa Criolla e Malungos, a ela se referindo como uma Comunhão de Culturas.

Em 1994 e 1995, o Balé Folclórico de São Paulo lança-se à sua empreitada mais desafiadora - o Projeto Folclore Brasil, surgido da vontade de mostrar o Brasil aos brasileiros, São Paulo aos paulistas, buscando-se ocupar o espaço (Ginásio do Ibirapuera) em que são alocados espetáculos internacionais de apelos mais consumistas que aqui aportam.

Estávamos certos de que os ventos da globalização, que pareciam de início assinalar de vez o fim das expressões culturais identitárias - seja pelo viés do exótico, seja pela saturação das manifestações de mercado ou mesmo pela busca da diversificação - sinalizavam outras direções, contradizendo as previsões dos teóricos. Paralelamente ao consumo dos bens culturais urbanos, enlatados e pastificados veiculados pela mídia, o cidadão do mundo, estimulado pelo próprio sistema comunicacional e de marketing, buscava também consumir as expressões das diferenças, as marcas de identidade, que se transformam mas permanecem. E resolvemos testar o que supúnhamos.

Significou o momento de consolidação e plenitude de nossas propostas e considerações sobre o papel dos Balés Folclóricos no mundo.

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O início
As linhas mestras
O bando
Amadurecimento
Surge o nome Abaçaí
O divisor de águas: Folclore
Ação Cultural
Chegada ao Parque


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